quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Melhores Filmes de 2014

Em meio uma enxurrada de listas de melhores filmes do ano era praticamente impossível ficar impassível a alguns absurdos cinematográficos que às vezes são encontrados nestas contagens. Desta forma, fiquei tentado a criar a minha própria (e pessoal) lista de melhores filmes de 2014 e que não está imune aos tais absurdos. Se este não foi um dos melhores anos da indústria, para mim foi um grande ano, sendo com certeza o ano em que mais estive presente em salas de cinema, se entupindo ou não de pipoca, mas sempre muito bem acompanhado. As sextas à noite não poderiam ser melhores. Enfim, segue o meu top 10.
P.S: Foram levadas em consideração as datas de lançamento no Brasil e sei que alguns filmes que mereceriam estar aqui ficaram de fora pelo simples fato de eu não ter tido a oportunidade de vê-los.

1. Boyhood

Boyhood é um filme simples, delicado e extremamente tocante. Afora a cruzada cinematográfica que foi rodá-lo que já mereceria todos os aplausos, o filme nos proporciona uma experiência incrível, com uma trilha sonora muito particular e uma experiência extremamente intimista. Coloquei-o no topo da lista sem sombra de dúvidas.

2. O Lobo de Wall Street

Scorcese surtado, Di Caprio surtado, roteiro insano e três horas de duração, receita perfeita para um dos filmes mais divertidos do ano. Além de Di Caprio, ainda temos o excelente Jonah Hill, a bela Margot Robbie e a impagável participação de Matthew McConaughey (que com sua incrível guinada na carreira roubou o ano de 2014 do cinema para ele).

3. Ela

Joaquim Phoenix já provou diversas vezes para mim por que é um dos melhores atores de sua geração, e só reforça isso em Ela, belíssimo filme de Spike Jonze. Mais um filme intimista na lista, o filme merece aplausos por sua linda fotografia e design de produção, ainda contando com um roteiro ao mesmo tempo leve, divertido e melancólico.

4. Inside Llewin Davis

Ambientado em uma Nova York fria e nostálgica, A Balada de um Homem Comum nos leva em uma melancólica viagem pelos anos 60, em um universo encharcado de contra-cultura americana. Visualmente e musicalmente lindo. E ainda conta com uma incrível surpresa, Oscar Isaac.

5. Garota Exemplar

Garota exemplar é um filme metódico. E se isso poderia soar como uma crítica negativa, não é. Seu roteiro exigia uma direção metódica, e David Fincher a faz como ninguém a faria. Um filme cínico, ácido e satírico. E além de tudo uma surpresa positiva inesperada, que veio quieto comendo pelas bordas. E por mais que seja doloroso dizer, até Ben Affleck está bem no filme.

6. Vidas ao Vento

Talvez a despedida do gênio da animação Hayao Miyazaki, Vidas ao Vento é o filme mais sóbrio do mestre, mas que nunca deixa de fazer suas habituais visitas ao fantástico e onírico. Animado com perfeição, o filme não poderia ser uma despedida melhor de Miyazaki, já que o sonho de voar tão presente em sua obra aqui está pautado pela realidade. Lindíssimo.

7. Doze Anos de Escravidão

O vencedor do prêmio-mor do Oscar é um filme cru, pesado e doloroso. Contando com atuações incríveis de todo o elenco, uma direção pesada e violenta de Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão não deixa o telespectador sair ileso da sessão.

8. Relatos Selvagens

A antologia argentina de histórias nos rende uma das mais agradáveis experiências cinematográficas de 2014. Irônico, o filme é extremamente hábil em retratar todas as tensões que assolam a sociedade argentina nesta década. Alguns capítulos são impagáveis.

9. O Homem Mais Procurado

Se este filme não fosse bom por si só, já bastaria para uma coisa: mostrar o quanto Phillip Seymour Hoffman vai fazer falta no mundo do cinema. Mas, além disso, O Homem Mais Procurado é um thriller habilidoso e que lida com alguns temas extremamente atuais e relevantes. Um grande filme.

10. O Homem Duplicado


Baseado em conto de José Saramago, O Homem Duplicado é um filme angustiante, pesado e arrastado, elementos que cumprem suas funções narrativas de forma excepcional. Sensorial ao extremo, o filme nunca nem tenta explicar o que está acontecendo, mas inunda a tela com imagens, cenas e metáforas que o tornam tão misterioso e intrigante. Grande trabalho do canadense Denis Villeneuve.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Crítica: Interestelar


Interestelar (Interstellar) – 2014

Nota: 4/5


Antes mesmo de escrever sobre Interestelar já prevejo que será uma tarefa bem difícil. De um lado temos a maldição moderna do cinema, a famigerada expectativa. E se uma publicidade bem feita (algo que não falta em Hollywood) já é o suficiente para inquietar até os mais céticos, quando o longa vem assinado por Christopher Nolan, a chance de se sair incólume da maldita expectativa tende a zero. Do outro lado temos a enxurrada visual e sonora que compõe a maior parte do filme. E como é lindo. Mas a este lado da equação infelizmente soma-se uma narrativa problemática. E assim como eu não sai imune das expectativas, o filme não saiu imune dos problemas.

Para uma melhor análise do filme, vou dividi-lo em três atos (infelizmente não garanto isenção de spoilers). O primeiro ato é irregular. Se por um lado é eficiente em ambientar uma Terra a beira da catástrofe, faminta e seca através de belas cenas como a perseguição de um drone pela família-protagonista, por outro lado é extremamente expositivo ao tratar de questões científicas complexas, o que acaba tornando esta parte do filme um pouco maçante. Mas já neste ato é possível ver os traços de dois dos pontos mais fortes do filme: trilha sonora e fotografia. Hans Zimmer entrega uma trilha sonora lindíssima, pesada, inquietante e quase monotônica. Outro ponto que já começa a se destacar nesta parte da película é a atuação de Matthew McConaughey, onde suas capacidades dramáticas são mostradas nas dúvidas e conflitos de seu Cooper, entre abandonar seus filhos em um mundo insalubre e fazer o que nasceu para fazer, explorar o espaço. Aqui surge outra cena marcante e bela em que Cooper, ao tomar a decisão de ir atrás de um mundo melhor para seus filhos, afasta-se da casa entre lágrimas.

O segundo ato, se fosse por si só um filme isolado já garantiria um lugar entre os clássicos de ficção cientifica. Neste ponto do filme, o telespectador é jogado em um espaço silencioso e misterioso, compartilhando com os exploradores espaciais a angústia de não saber os espera logo à frente. Jorrando referencias ao clássico supremo da ficção científica 2001: Uma Odisseia no Espaço, Nolan conduz seu projeto de forma primorosa através do misterioso. E é neste ponto em que o filme explora seu melhor recurso narrativo e dramático, o tempo. Utilizando a tão famosa e tão pouco compreendida Teoria da Relatividade, de Einstein, Nolan entrega as melhores sequências do filme, entre elas a melhor do filme, em que Cooper percebendo (e se arrependendo) do tempo que perdeu com seus filhos assiste uma série de mensagens onde acompanha o crescimento dos mesmos. Mas é justamente no segundo ato que os problemas, que viriam a compor o problemático terceiro ato, começam a ganhar força. Tentando introduzir questões emocionais como amor em um ambiente extremamente racional acaba criando alguns diálogos que beiram a vergonha alheia.

Enfim chegando ao terceiro ato, Nolan abandona praticamente toda a linha lógica e racional que povoou o filme e se entrega às emoções. E infelizmente é piegas. Ainda que uma ou outra cena mostre força, principalmente o reencontro entre Cooper e sua filha (90% da força desta cena deve-se a Hans Zimmer), o desfecho do filme é corrido e artificial, apostando em solução confusas e ao melhor estilo Deus Ex Machina.


Bem como havia dito no começo do texto, escrever sobre Interestelar não foi fácil. Ainda que seus pontos fortes sejam extremamente fortes, seus pontos fracos possuem força suficiente para não deixar o filme em paz. De qualquer forma, Interestelar consiste uma experiência obrigatória para os fãs de Christopher Nolan e aos amantes de ficção científica. E se tratando de um filme tão relativo, fica difícil classificar o filme com algo tão absoluto quanto uma nota. E desta forma, para ser justo, só colocarei os devidos pingos nos is quando tiver a oportunidade de rever a obra, me reservando o direito de “virar a casaca”. Mas acima de tudo, “in Nolan we trust”.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Crítica: Fruitvale Station


Fruitvale Station (Fruitvale Station) – 2013

Nota: 4/5


É impossível, ao assistir os minutos iniciais de Fruitvale Station onde são mostradas filmagens reais feitas por um celular do assassinato de um jovem negro nos Estados Unidos, não lembrar um caso recente brasileiro onde um jovem toma um tiro no meio da rua, também capturado pelas lentes de um celular. Ambas as ações policiais. Ainda que guardadas as devidas diferenças, os dois casos são semelhantes em duas coisas: despreparo da polícia e a discriminação racial. Outro fato curioso é as duas situações ocorreram nos estados mais ricos de seus respectivos países, mostrando que a discriminação racial ainda é forte em todos os lugares. Enfim, não quero muito me aprofundar muito em questões sociais, pois isso é pisar em casca de ovo.

O filme mostra as últimas 24 horas de vida de Oscar Grant, interpretado de forma poderosa por Michael B. Jordan. Adotando uma abordagem quase documental, abusando de uma câmera nervosa, afobada e com quadros fechados, o filme é eficiente em criar o clima de tragédia anunciada. Aqui, porém reside uma ambiguidade narrativa, pois se de um lado gera um clima de tensão constante no filme, mesmo em cenas alegres, por outro lado acaba por criar uma áurea de mártir envolta de Oscar. Felizmente o roteiro compensa este problema mostrando a rotina de um homem falho, um jovem sem grandes perspectivas e a margem da sociedade (realmente se trata de um filme onde é impossível não esbarrar em questões sociais).

A maior força de Fruitvale Station está em seu elenco. Desde o já supracitado Michael B. Jordan, Melonie Diaz que interpreta a namorada e mãe da filha de Oscar, Octavia Spencer e até mesmo os personagens “menos importantes”. O diretor ainda emprega um elemento narrativo interessante ao colocar em cena as telas do celular de Oscar, aparelho que no fim seria o responsável pelo registro da barbárie que se tornaria o ato final do filme.

Por fim, durante o ato final, a truculência policial só não choca mais por que o desfecho já era conhecido desde o inicio da projeção. E os gritos de desespero de Oscar dizendo aos policiais “eu tenho uma filha” ao perceber que o pior havia ocorrido constituem uma imagem emocionante, forte e emblemática. Um filme que infelizmente deve permanecer atual por muito tempo.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Crítica: Boyhood


Boyhood (Boyhood) – 2014

Nota: 5/5

 

O novo filme do diretor Richard Linkater, ou melhor, a nova obra-prima do diretor é um evento cinematográfico raro. Podemos dizer que o filme utiliza do conceito de que “simple is beautiful”, contando a história de crescimento de um garoto comum no estado americano do Texas. Mas se a premissa é simples, a sua execução não é.


Filmado ao longo de 12 anos com os mesmos atores, o filme acompanha a vida de Mason (Ellar Coltrane) dos 5 anos de idade até os 18, quando ingressa na faculdade. A infância e adolescência de Mason, ainda que atravesse algumas dificuldades envolvendo escolhas erradas na vida amorosa de sua mãe, não é nada traumatizante. Filho de pais separados, possuí uma boa relação com ambos, não tem problemas com as garotas, atravessa as jornadas de auto-conhecimento envolvendo bebidas, drogas e sexo de maneira completamente natural. E como uma história completamente banal como esta pode se transformar em uma obra-prima cinematográfica? A resposta está nos parágrafos abaixo.


O primeiro a ser elogiado será o diretor Richard Linkater, que já havia demonstrado a impressionante capacidade de humanizar seus personagens, conflitos e medos na incrível trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia Noite. Já em Boyhood o diretor eleva todas as suas qualidades a um nível superior. É incrível o planejamento do diretor para rodar um filme em 12 anos e manter sua fluidez. E podemos dizer que em momento algum o filme perde esta dita fluidez, já que acompanhar o crescimento de Mason nas telas acontece de maneira completamente natural, seja por imagens, ações e acontecimentos do cotidiano do personagem principal e dos que estão ao seu redor.


O núcleo central de atores que conta com Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquete e a filha do diretor Lorelei Linkater, também merece só elogios. Além do impressionante comprometimento com um projeto por mais de uma década, é incrível o desenvolvimento das relações e da química entre os personagens. É incrível ver o pai interpretado por Ethan Hawke, que não passava de um moleque que se viu em meio a uma paternidade não planejada, amadurecer diante das telas, seja através do peso das responsabilidades que a vida cobra, do aparecimento das rugas e do enfraquecimento do vigor da juventude. Não menos fascinante é acompanhar o desenvolvimento da mãe interpretada por Patricia Arquete, que se vê desde muito jovem com duas crianças sob seus cuidados, que tem que batalhar para sustentar a família, que vive em constante decepção amorosa, e que assim como Hawke, envelhece diante das telas. E para Ellar Coltrane, que literalmente atravessa a infância e adolescência diante das câmeras, também só sobram elogios.


Ambientado em um EUA paranoico pós 11 de setembro, o filme ainda mostra como o ambiente e a influência dos pais é essencial no desenvolvimento da cabeça das pessoas. E o filme flerta de uma maneira natural com alguns temas como política, guerra, religião, crescimento do conservadorismo, conflito de gerações, entre outros. No aspecto técnico a projeção é impecável. Os conhecidos longos planos de diálogos de Linkater estão presentes. O roteiro é muito bem amarrado. A montagem torna as transições temporais extremamente naturais. A trilha sonora é sensacional.



Acho difícil que algum filme consiga tirar de Boyhood o título de melhor filme de 2014. Após quase 3 horas de projeção, é impossível não se identificar minimamente com a simples, bela e cotidiana história contada. E se a trilogia já citada anteriormente tratava do nascimento e amadurecimento de um relacionamento, Boyhood trata de forma extremamente sensível do nascimento e do amadurecimento de algo muito mais essencial, o ser humano.

Pequenas Notas (3)



Festa no Céu (The Book of Life) - 2014

Nota: 3/5

Festa no Céu é visualmente impressionante e impecável, algo que infelizmente o roteiro não é. Apresentando uma temática interessante e pouco usual, o dia dos mortos, o filme perde força em seu roteiro “preguiçoso” e clichê. Mas contando com toques de seu produtor Guillermo Del Toro, o design de produção nos apresenta cenas com vivacidade de cores e texturas poucas vezes vistas no cinema, como o incrível e “vivo” mundo dos mortos. Em um momento de hiato de grandes animações (Frozen não me convenceu), principalmente por parte da Pixar, Festa no Céu convence.




Trash: A Esperança Vem do Lixo (Trash) - 2014

Nota: 1/5

Stephen Daldry seleciona com um elenco sensacional (Wagner Moura, Selton Mello, José Dumont, André Ramiro, Martin Sheen, Rooney Mara) e literalmente os joga no lixo. Trash tenta juntar Quem Quer Ser um Milionário com Cidade de Deus em uma fábula sobre as mazelas do Brasil e não faz jus nem aos filmes, nem aos problemas, nem ao país. A única coisa boa do filme é o carismático trio de jovens atores. E se filmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens são exemplares de obras que fazem uma dissecação de toda a sociedade brasileira através da pobreza, Trash não chega nem perto de entender a sociedade brasileira, muito menos estuda-la.




Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola 

(A Million Ways to Die in the West) - 2014

Nota: 3/5

Dirigindo seu segundo longa-metragem Seth MacFarlane, agora também atuando, entrega uma comédia “non-sense” e de humor negro ambientada no perigoso Velho-Oeste americano. Mesmo sem contar com grandes atuações, ou grandes momentos, o filme é eficiente em manter um ritmo suficiente para não perder o telespectador. A presença de Neil Patrick Harris, que diverte principalmente os fãs do seriado How I Met Your Mother, mostra que o ator terá dificuldade em se desvencilhar de seu antigo personagem Barney. Ainda que inferior ao Ted, o primeiro longa do diretor, e ainda contando com um horroroso título nacional, o filme merece ser conferido por quem gosta do humor escrachado de Seth MacFarlane.






Homem de Ferro 3 (Iron Man 3) – 2013

Nota: 2/5


Depois das empolgantes divulgações do trailer de Os Vingadores: A Era de Ultron e do teaser da Guerra Infinita, era difícil conter a euforia e não assistir um filme de super-herói da Marvel. Três opções me surgiram na cabeça: Capitão América – O Soldado Invernal, Thor: O Mundo Sombrio e Homem de Ferro 3, todos filmes pertencentes a segunda fase do universo expandido da Marvel. E resolvi escolher justamente Homem de Ferro 3 por ter sido o que menos gostei na primeira vez em que assisti. E se a esperança de que assistindo pela segunda vez conseguiria encontrar qualidade que antes passaram em branco se foram nos primeiros minutos do filme. Uma palavra poderia resumir o filme: pastelão. Ainda que Downey Jr continue eficiente em sua atuação como Tony Stark, todo o resto cai aos pedaços. O roteiro é uma catástrofe, os vilões são risíveis, as reviravoltas previsíveis e sem graça, e as soluções desastrosas. E se os filmes anteriores eram beneficiados pelo humor e pela ação, este terceiro capítulo erra até neste ponto. Mais um filme que promete, vende bem o seu peixe (os trailers eram incríveis) e falha em sua execução. Por sorte este filme foi o primeiro e único tropeço da Marvel na Fase 2, já que depois Capitão América e Thor acertaram a mão. 

domingo, 28 de setembro de 2014

Crítica: Maze Runner

Maze Runner – Correr ou Morrer

(The Maze Runner – 2014)

Nota: 2,5/5



O óbvio e lucrativo ciclo hollywoodiano de filmes com temáticas semelhantes já parece ter esgotado o atual tema (distopias juvenis, que teve seu provável início em Jogos Vorazes dois anos atrás) antes mesmo de mostrar decadência financeira. Estreando praticamente junto com outro filme da leva, O Doador de Memórias, e pouco depois de Divergente, não muda em nada as estruturas estabelecidas dos longas anteriores (ou simultâneos), acompanhando jovens aparentemente normais “jogados” no meio de revoluções culturais/políticas.

Maze Runner (com mais um horrendo e explicativo subtítulo nacional “Correr ou Morrer”) acompanha um grupo de jovens, todos homens, presos em um labirinto gigante e povoado por criaturas assassinas, sem qualquer lembrança de suas vidas antes do isolamento além de seus nomes. Aqui já cito o primeiro problema estrutural e narrativo do filme, já que o filme aposta em soluções óbvias para revelações da trama e personagens sem qualquer profundidade que estão ali apenas para cumprir sua função de revelar mais um pedaço do quebra-cabeça.

Outro problema surge por conta do roteiro, já que Maze Runner repete a premissa de Jogos Vorazes ao apresentar uma espécie de reality show sádico (ou será que alguém assistiu ao filme não sabendo que alguém estava observando os garotos), falha justamente onde o segundo acerta, em seus personagens. Se Jogos Vorazes é eficiente em criar carisma para seus personagens, contando com a ajuda ainda de atores como Jennifer Lawrence e Woody Harrelson, Maze Runner falha em criar qualquer sinal de empatia com seus personagens genéricos e até caricatos. E além dos personagens ainda falta um fundo narrativo mais concreto que sustente a história.

Apesar das falhas estruturais e narrativas, o filme consegue pelo menos criar alguns momentos de tensão capazes de prender o telespectador, evitando uma catástrofe maior. E por mais falhas que o roteiro apresente algumas revelações que são aos poucos jogadas e que acabam por despertar curiosidade, o que não torna o filme uma travessia chata e entediante.

Para manter a faixa etária indicativa do filme, a história acaba perdendo algumas discussões interessantes que poderiam surgir da situação de confinamento de um bando de garotos por anos (algo que não sei se o livro faz), sem perspectivas de liberdade. E por fim, o filme apresenta um desfecho apressado, que tenta criar expectativa para os próximos filmes (será uma trilogia), mas que apenas chateia, deixando muitas perguntas sem respostas e ainda introduzindo mais perguntas. 
Portanto, Maze Runner, apesar de não apresentar uma experiência entediante, se mostra genérico e esquecível.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Pequenas Notas (2)


Vidas ao Vento (Kaze Tachinu) – 2013

Nota: 5/5


Trata-se de um filme muito diferente de todos os trabalhos anteriores de Hayao Miyazaki por abandonar a fantasia costumeira do diretor e apostar em uma cinebiografia animada. Mas nem por isso deixa de ser um filme encantador, belo e até de certa forma ingênuo e inocente ao tratar de um tema sério (guerra). Melhor animação de 2013.

Até o Fim (All is Lost) – 2014

Nota: 4/5


Filme de poucas palavras, contemplativo. Eficiente em retratar através de suas imagens e trilha sonora a solidão do oceano e angústia de se estar à deriva do mesmo. Robert Redford leva o filme nas costas com naturalidade, com um personagem interessante justamente por não sabermos nada a respeito de sua vida e seu passado, que só mostra um pouco de quem realmente é através de sua frieza diante da situação extrema em que se encontra.


O Espelho (Oculus)

Nota: 3,5/5


Terror acima da média, com sustos em boa quantidade e muitas vezes pouco previsíveis. Apresentando uma estrutura narrativa e montagem que funcionam muito bem ao intercalar dois períodos da vida dos dois protagonistas, que mesmo já sabendo onde irá acabar a história é capaz de gerar tensão e suspense.

 

Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes) – 2014

Nota: 4/5


Com certeza uma evolução do competente filme anterior. O início do filme que mostra toda a estrutura da nova sociedade liderada pelo chimpanzé Caesar é sensacional. Grande força do filme reside justamente no carisma que Caesar evoca, graças ao excelente trabalho de efeitos visuais que faz você realmente acreditar naquele personagem. Infelizmente, assim como no anterior, o núcleo humano é fraco, com alguns estereótipos clichês, e com o personagem de Gary Oldman praticamente nulo na história.

Bananas (Bananas) – 1971

Nota: 2,5/5


Um dos primeiros e piores filmes do diretor/ator Woody Allen. Bananas é um filme datado, com um humor datado e até mesmo bobo. Nota-se claramente que se trata de um Allen ainda inexperiente, mas já é possível observar alguns traços do que o diretor viria a se tornar em seguida.

Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre o Sexo e Tinha Medo de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex* But Were Afraid to Ask) – 1972

Nota: 4/5


Projeto posterior ao Bananas (1971) este filme, contado através de sete pequenos contos, já mostra um Woody Allen muito mais seguro e engraçado. Mesmo que nem todos os contos mantenha o mesmo nível de qualidade, os pontos positivos são suficientes para ofuscarem os pontos negativos.

A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death) – 1975

Nota: 4/5



N’A Última Noite de Boris Grushenko Woody Allen começa a mostrar realmente sua acidez e sarcasmo que viria a estar constantemente rondando as obras do diretor. Possui alguns momentos em que o diretor tenta expor suas ideias filosóficas e questões religiosas que acaba por enfraquecer um pouco o filme, mas o humor é de primeira qualidade, garantindo um filme muito divertido. Woody Allen sendo realmente grande.


Em breve texto completo de Guardiões da Galáxia =)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Pequenas notas





No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow) – 2014

Nota: 3,5/5


Grata surpresa chegou com a expectativa lá embaixo graças a seus trailers genéricos e surpreendeu. Ficção científica envolvendo viagens temporais é sempre um perigo, mas aqui funciona muito bem. Divertido, engraçado, muito bem montado, e mesmo perdendo força em seu ato final devido a soluções óbvias e pouco corajosas, as qualidades sobrepujam os defeitos.




Família do Bagulho (We’re The Millers) – 2013

Nota: 2,5/5


Em um ambiente repleto de comédias e comediantes medíocres, Família do Bagulho acaba se destacando, ainda que não tão engraçado e inspirado como as “recentes” Quero Matar Meu Chefe (2011), Se Beber, Não Case (2009) e Na Mira do Chefe (2008), acaba criando algumas situações realmente engraçadas. Infelizmente esses momentos não são maioria.

Ela (Her) – 2013

Nota: 5/5


Belo, contemplativo e triste. Joaquin Phoenix entregando outra excelente atuação, ao lado da também eficiente atuação de voz da Scarlet Johansson. Spike Jonze também entrega uma direção eficiente junto com o belíssimo design de produção, que com o constante uso de cores frias cria um ambiente futurístico, asséptico e solitário. A cena da canção é belíssima. Excelente filme.

 



Vizinhos (Neighbors) – 2014

Nota: 2,5/5


Seguindo a linha dos filmes da turma do Seth Rogen, James Franco e companhia, “Vizinhos” é uma comédia que acaba ficando na média. Funciona como passatempo e só.


Como Treinar o Seu Dragão 2 (How to Train Your Dragon 2) – 2014

Nota: 4/5


Mais um dos raros casos em que a continuação é melhor que o original, algo que parecia improvável dado à qualidade do primeiro filme. Aproveitando um ambiente de escassez criativa da Pixar, a Dreamworks entrega uma animação tecnicamente bonita e viva, repleta de personagens carismáticos, e que tenta fugir o máximo possível dos clichês do gênero.

A Caça (Jagten) – 2013

Nota: 5/5


Angustiante, denso e pessimista, A Caça é um excelente exemplar da “escola dinamarquesa” de cinema. Thomas Vitenberg joga o espectador na lama junto com seu personagem principal, interpretado por Mads Mikkelsen, papel que acabou lhe rendendo merecidamente o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes de 2012. Nem mesmo o final do filme é capaz de encerrar a angústia que este filme proporcional.

 

O Homem Duplicado (Enemy) – 2013

Nota: 4/5



Depois dos excelentes Incêndios (2010) e Os Suspeitos (2013), o diretor canadense Denis Villeneuve volta a entregar mais um trabalho de qualidade, desta vez muito mais psicológico que os trabalhos anteriores. O Homem Duplicado é um filme cru, escuro, sem muitas explicações e lotado de simbolismos. A fotografia amarelada e escura é essencial para criar a atmosfera de paranoia do filme. Não se trata de uma experiência cinematográfica fácil e rotineira, já que o filme possui um ritmo um pouco arrastado e poucos diálogos, algo que com certeza fez muita gente sair da sala antes do fim do filme. Mas para aqueles que aguentaram até o final o filme se mostra interessante e diferente do que o circuito hollywoodiano apresenta.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

X-Men: Dias de um futuro esquecido

(X-men: Days of a future past)

Nota: 5/5

Ano de lançamento: 2014

Direção: Bryan Singer

Elenco: Jennifer Lawrence, Evan Peters, Hugh Jackman, Nicholas Hoult, Ian McKellen, Michael Fassbender, Ellen Page, Peter Dinklage, James McAvoy, Patrick Stewart



X-Men: Dias de um futuro esquecido era, juntamente com Guardiões da Galáxia, Interstelar e Planeta dos Macacos: Confronto, um dos blockbusters que eu mais esperava neste ano. A ideia da união do elenco da trilogia original com o do X-Men: Primeira Classe era simplesmente maravilhosa, e que ao mesmo tempo criava certa preocupação em relação à capacidade do roteiro e da direção de controlar os diversos personagens, além de corrigir certas incongruências da história. Acrescentando à mistura ainda havia viagens no tempo, algo que instiga a curiosidade de todos, mas que pode ser extremamente traiçoeiro se não bem amarrada à história.

Começo dizendo que onde o filme poderia ter dado errado não deu, que é justamente no roteiro. Eficiente ao tratar e dar espaço aos diversos personagens, em suas diversas versões temporais, a história consegue criar um fluxo orgânico, e que em momento algum fica confusa ou corrida demais. Assim como todos os demais filmes do grupo o assunto preconceito volta como principal tema, o que não é algo ruim, já que apesar de abordado com frequência ao longo dos quase quinze anos da série, só mostra o quão relevante ainda é o assunto, e o quão pouco mudou em tanto tempo. E aqui fica impossível não traçar paralelos com os casos recentes e recorrentes de racismo, onde o sofrimento de muitos torna-se o lucro de poucos oportunistas.

Quanto à direção de Bryan Singer só me resta elogios, mostrando segurança nas cenas de ação, um timing cômico sensacional que entra de forma pontual e eficiente evitando a quebra de ritmo, criando uma atmosfera insalubre no futuro, e uma atmosférica nostálgica no passado, misturando o que há de melhor da trilogia original com o mais recente Primeira Classe. A montagem do filme também é algo surpreendente, construindo uma tensão crescente representada principalmente pelo aumento de alternância entre as realidades com a aproximação do clímax do filme. As cenas finais onde no tempo futuro os sentinelas descobrem o paradeiro dos mutantes e chegam as centenas, contando com um certo exagero para expressar o senso de urgência, ao mesmo tempo que em no passado as ações de certos mutantes estão prestes a destruir todo o esforço de salvação do futuro são extremamente bem amarradas. E é aqui que entra a eximia capacidade de Singer de dirigir as cenas que em momento algum perdem a geografia da ação, mesmo com os mais diversos e espalhafatosos poderes surgindo pela tela a todo instante.

O filme ainda conta com um elenco impecável. Hugh Jackman já é a própria personificação de mau humor e acidez do Wolverine. James McAvoy volta sensacional interpretando um professor Xavier jovem, tolo e marcado pelas recentes decepções da vida, contrastando com a experiência quase espiritual do professor interpretado por Patrick Stewart. A cena onde os dois professores, em suas diferentes versões, conversam é memorável. Já Michael Fassbender volta de forma espetacular a sua interpretação do fascinante e cruel Magneto, contrapondo ao cansado Magneto de Ian McKellen. Jennifer Lawrence volta a interpretar a Mística com competência.  Já a participação de Evan Peters como Mercúrio é curta, porém divertidíssima.


Mesmo evitando responder algumas perguntas críticas (como o professor Xavier recuperou seu corpo após ser destroçado em X-Men 3?) e mantendo algumas incongruências da história, X-Men: Dias de um futuro esquecido é um filme bem desenvolvido, com dezenas de atores e personagens carismáticos, com cenas de ação eficientes na medida certa, além de novamente levantar algumas discussões à assuntos importantes e relevantes.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Godzilla

Nota: 1/5

Nome original: Godzilla

Ano de lançamento: 2014

Direção: Gareth Edwards

Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Juliette Binoche, Bryan Cranston, Ken Watanabe


Se existe algo que podemos afirmar sobre Hollywood é que eles sabem vender o seu peixe. E confesso que já fui vítima diversas vezes do famoso hype, dos trailers sensacionalmente editados (deixo aqui o meu obrigado para a equipe responsável pelos trailers de O Homem de Aço por minha maior decepção cinematográfica recente), das campanhas virais. No caso de Godzilla não posso dizer que me senti totalmente prejudicado, que apesar de reconhecer a excelente campanha de marketing envolta do filme, dos trailers no mínimo instigantes, não era um filme que eu botava tanta fé.

            Mas, depois de ter comprado o ingresso (e pagado caro, já que infelizmente fui obrigado a ver a versão 3D do filme) resolvi entrar na sessão com a mente aberta, e já pedindo perdão pela previsível, porém inevitável comparação com o recente e excelente Círculo de Fogo, pois poderia estar diante de uma grata surpresa como foi o filme do Guillermo Del Toro. Infelizmente, a tragédia foi maior do que a esperada.

            O começo do filme se mostra até que interessante, com uma abertura que me remeteu ao clássico blockbuster Jurassic Park com o helicóptero voando por entre as montanhas. Sendo conduzido pelo carisma e competência de Bryan Cranston, o diretor acerta ao postergar a aparição do monstro-título, criando uma ansiedade e até mesmo uma curiosidade em relação ao bicho. Entretanto, quando o enfoque do filme passa para o filho do personagem de Cranston, o filme começa a sua descida ladeira abaixo. Repleto de clichês chatos e um roteiro horroroso até mesmo para um filme de catástrofe, já que em momento algum o filme cria empatia com o personagem de Aaron Taylor-Johnson, com sua atuação nula e sua excelente habilidade de estar sempre presente no epicentro da tragédia. É aqui que infelizmente terei de fazer a primeira comparação com o filme do Del Toro, já que mesmo se tratando de um filme de robôs e monstros gigantes, nunca tenta criar o clima de seriedade que esse Godzilla tenta transpor, erroneamente.

            Introduzindo dois rivais monstruosos para o “protagonista” Godzilla, já é esperado que a destruição seja gigantesca, e ela realmente é. Entretanto, neste que teria de ser o aspecto mais desenvolvido do filme, mostra-se também um dos mais ineficientes, já que a maioria das cenas são desenvolvidas a noite, ou em locais fechados e escuros, o que torna a ação confusa e entediante, algo que piora ainda mais na versão 3D, já que além de escurecer ainda mais a visão do telespectador, não acrescenta absolutamente nada a experiência do filme. Aqui caio na segunda comparação com Círculo de Fogo, que mesmo enfrentando as mesmas dificuldades técnicas que Godzilla (criaturas gigantes se enfrentando em cenários povoados, com diversos elementos e construções) acaba criando cenas de ação extremamente eficientes, que deixam claro a geografia da ação para os telespectadores, e que empolgam, mesmo em cenas noturnas ou submarinas.

           Além disso, numa tentativa de fazer o telespectador de importar com a família do protagonista, a ação é entrecortada com passagens da mulher e do filho do mesmo, e assim como seu personagem principal, nenhuma empatia beira surgir, e nem mesmo a boa atriz Elisabeth Olsen consegue salvar sua personagem da mediocridade.

Como sempre surgem os argumentos de que o filme se trata de um fan-service. Pode ser que o filme até agrade os fãs mais calorosos do Gojira, mas não posso tratar o filme desta forma, e tenho certeza de que se fosse fã gostaria que o filme além de agradar minha nostalgia quase infantil fosse capaz de me apresentar um espetáculo cinematográfico no mínimo digno de um filme razoável, algo que, por exemplo, a nova franquia Star Trek alcançou de forma extremamente competente. No fim, Godzilla é um filme excessivamente longo, tedioso e irritante em seus milhares de clichês.