sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sobre uma noite para se lembrar


Dia 06 de abril de 2016, Chicago. Por volta das nove da manhã desembarquei na famosa Windy City depois de exaustivas dez horas de viagem de trem. Uma mescla de chuva e neve caía, temperatura beirando o zero, sensação térmica de dez graus negativos e aquele maldito vento que corta a cara. Mesmo sendo a terceira vez em que visitara a cidade, a primeira vista do centro de Chicago é sempre agradável, uma mistura de gigantescos e modernos arranha-céus (adoro especialmente um que parece serrado ao meio) e antigas construções que logo nos remete àqueles filmes de gangster do começo pro meio do século vinte. Mesmo sabendo que meu check-in seria somente às três da tarde resolvi pegar um ônibus e ir direto para o hostel onde ficaria hospedado naquela noite, talvez eles me liberassem um quarto. E assim com a sorte ao meu lado, às onze da manhã estava deitado em meu quarto, beliche numero oito.  que o clima não ajudava, decidi dormir algumas horas, pois sentia o peso de uma longa viagem nas costas. 

Quando eram cerca de três da tarde despertei e fui procurar algo para comer. Sai caminhando pelo calmo bairro em busca de algum fast-food barato e logo achei um MacDonalds. Fiquei um pouco chateado ao descobrir que a promoção de dois Big Mac por cinco dólares (plus taxes) havia acabado, mas tudo bem. Depois de alimentado, voltei para o hostel, tomei um banho e quando eram cerca de cinco da tarde me preparei para me dirigir ao local aonde o mestre David Gilmour iria se apresentar naquela noite. O show seria somente 8 da noite, com abertura dos portões às 7, mas imprevistos acontecem então melhor prevení-los. Depois de dez minutos de caminhada em direção à estação de metrô mais próxima percebi que algo estava faltando, havia deixado meus óculos na mochila, pois não havia os usado durante o dia,  porque chuva e óculos é uma combinação extremamente irritante. E por mais que meus poucos 1.75 graus de miopia me permitissem apreciar o show sem grandes prejuízos, resolvi voltar para pega-los. David Gilmour merecia toda resolução disponível. Cinco e meia estava de volta na estação Fullerton. Sabia que teria que tomar o trem da linha vermelha, direção 95th street, porém devido à multidão que circulava e à pressa acabei entrando em um trem da linha marrom e ainda por cima na direção contrária ao meu destino, estações de metrô podem ser confusas para alguém do interior de São Paulo. Percebido logo o erro, vinte minutos e dois trens depois eu estava de volta ao ponto inicial, estação Fullerton. 

Seis e dez, depois de finalmente acertar o trem e a direção, eu estava na frente do famoso Auditorium Theater da Roosevelt University. Esse adjetivo apareceu ai porque um funcionário do teatro anunciou para mim: "Welcome to the world's famous Auditorium Theater", pois confesso nunca ter ouvido falar sobre tal estabelecimento. A faixada do belo teatro era uma daquelas dos filmes de gangster. Pontualmente às sete horas os portões se abriram e tive tempo de explorar o interior do local, percorri os seis andares e encontrei meu lugar. A visão, apesar de um pouco distante do palco, era ampla e a beleza do imenso teatro ajudava. Faltando ainda quarenta minutos para o inicio da apresentação resolvi descer e tomar uma cerveja, dolorosos 8 dólares em uma long-neck de uma boa e amarga cerveja local que confesso não lembrar o nome. Faltando quinze minutos, peguei o elevador ( havia percorrido os seis lances de escada uma vez não tinha porque subir de novo). Enquanto subíamos o jovem ascensorista me perguntou se eu  havia visto alguma apresentação do Gilmour antes, respondi dizendo que esta seria a primeira vez, mas que  tinha tido a oportunidade de ver Roger Waters nos palcos. Ao ouvir isso ele soltou um humorado "lucky you" e me disse que tentaria dar uma espiada no show, confessando ser grande fã do guitarrista. Nunca mais vi o rapaz, mas internamente torci por ele. 

Foi então que exatamente às oito da noite daquele 06 de abril de 2016, David Gilmour entrou no palco trajando um simples jeans e camiseta preta. Um desavisado que visse aquele senhor de 70 anos de idade, quase sem cabelos e em trajes tão comuns quanto os meus, jamais desconfiaria estar na presença de uma lenda do Rock. Ainda sozinho no palco Gilmour vestiu sua igualmente lendária Stratocaster preta que acompanha o músico desde 1970 e solou a bela e suave "5 a.m.". Em seguida a banda entrou e os riffs marcantes de "Rattle That Lock" soaram pelo teatro. A acústica perfeita do lugar permitia ouvir nitidamente cada nuance de todos os instrumentos presentes ali naquele palco, e foi a primeira vez que a bela voz de Gilmour preencheu o salão, de arrepiar todos os fios de cabelo do corpo. A música seguinte também foi uma de seu mais recente álbum, "Faces of Stone".

O tão aguardado momento havia chegado, Gilmour deixou de lado a guitarra, pegou um violão e dedilhou o primeiro Pink Floyd da noite, logo de cara uma "Wish You Were Here", música (e álbum) que carrego tatuada nas costas para o resto da vida. Confesso que fui pego desprevenido, pois esperava que a música fosse uma das ultimas do show, até mesmo em um possível bis. Foi pra começar com grande estilo, e foi lindo. Depois foi a vez de "What Do You Want From Me", a primeira da fase pós Roger Waters. Depois de dois Floyds na conta, hora de voltar para Gilmour, com "A Boat Lies Waiting" e "The Blue", esta última do álbum "On an Island" de 2006. Em seguida dois clássicos do magnífico álbum "Dark Side of The Moon", "Money" e "Us and Them", com direto aos belíssimos arranjos do saxofonista brasileiro Joao Mello, músico de apenas 20 anos. Foram então as vezes dos assovios iniciais de "In Any Tongue" soarem, naquela que considero a melhor canção desse mais recente trabalho de Gilmour. O crescente e magistral solo da canção "High Hopes" encerrou a primeira parte do show. Foi nesse momento que Gilmour dirigiu a palavra pela primeira vez para a plateia, agradecendo e dizendo que faria uma pausa de 15 minutos para tomar um ar. 

O inicio da segunda parte foi uma apoteose psicodélica, com um epilético show de luzes e o som insano de "Astronomy Domine", lá da época em que Syd Barrett ainda reinava absoluto como líder do Pink Floyd Sound. Foi então, como que para homenagear seu amigo, que "Shine On You Crazy Diamond" aconteceu. Linda. Marcante. Inesquecível. Foram então "Fat Old Sun", "Coming Back to Life", "The Girl in the Yellow Dress" e "Today". Veio em seguida a guitarra pesada e distorcida de "Sorrow", que talvez junto com "High Hopes" seja a melhor música da fase Gilmour do Pink Floyd. Outro show de efeitos epiléticos ao som da frenética "Run Like Hell". Ao fim da canção Gilmour apresentou sua banda, agradeceu a plateia e deixou o palco. Aquele charminho para fazer a plateia pedir por mais e voltar para mais algumas poucas canções. Mas quem no mundo tem no repertório um bis composto por nada menos que "Time" e "Comfortably Numb"?  ele e Roger Waters. Queria ter palavras para descrever a sensação de ouvir ao vivo o entorpecente solo final de "Comfortably Numb", mas nem em cem anos as teria. E assim o mestre deixou o palco, dessa vez para não voltar mais naquela noite incrível. 

Deixei o teatro por volta das onze e meia, a chuva havia cessado, o vento estava calmo e a "amena" temperatura de 3 graus positivo tornaram aquela uma bela noite no centro de Chicago. Dirigi-me para a estação de metrô e o assunto que reinava naquele confinado espaço subterrâneo era somente um, David Gilmour. Sozinho, pegava com frequência frases soltas de pessoas que assim como eu estavam digerindo o que tinham acabado de presenciar, outras sorriam ao ouvir as gravações que haviam feito daquela noite. Cheguei à estação Fullerton por volta de meia noite e caminhei por uma escura e deserta Chicago com uma calma ímpar,  pensando em escrever esse texto no qual vos falo neste momento. Chegando ao hostel me dei conta de estava com fome e ao pedir ao simpático funcionário do balcão alguma indicação, o mesmo me recomendou um barzinho no fim da rua que segundo ele servia uma ótima porção de lula empanada e que provavelmente era um dos poucos recintos ainda aberto àquela hora da noite em plena quarta-feira. Uma portinha escondida com uma pequena lousa anunciando as promoções da noite nomeava o recinto de "The Other Side Bar". Sentei-me no balcão, pedi a tal porção de lula e perguntei ao garçom se eles tinham a cerveja Blue Moon na casa, que me respondeu negativamente, sugerindo uma tal de Allagash, que segundo ele era do mesmo estilo porém muito superior. Aceitei a sugestão e comi a porção. Caminhei novamente em direção ao hostel, escovei os dentes e deitei-me, ainda meio extasiado.


Deitado no beliche número oito refleti antes de finalmente adormecer: muitos dizem que o Pink Floyd e o mundo do Rock perderam muito com a loucura que repentinamente encerrou a brilhante e fugaz carreira de Syd Barrett. Talvez o mundo seja pequeno demais, porque se o mundo não tivesse perdido o diamante louco, talvez tivesse perdido David Gilmour. No fim das contas acho que a troca tenha sido justa.