Interestelar (Interstellar) – 2014
Nota: 4/5
Antes mesmo de escrever sobre Interestelar já prevejo que será uma tarefa bem difícil. De um lado
temos a maldição moderna do cinema, a famigerada expectativa. E se uma
publicidade bem feita (algo que não falta em Hollywood) já é o suficiente para
inquietar até os mais céticos, quando o longa vem assinado por Christopher
Nolan, a chance de se sair incólume da maldita expectativa tende a zero. Do
outro lado temos a enxurrada visual e sonora que compõe a maior parte do filme.
E como é lindo. Mas a este lado da equação infelizmente soma-se uma narrativa
problemática. E assim como eu não sai imune das expectativas, o filme não saiu
imune dos problemas.
Para uma melhor análise do filme, vou dividi-lo em três atos
(infelizmente não garanto isenção de spoilers). O primeiro ato é irregular. Se
por um lado é eficiente em ambientar uma Terra a beira da catástrofe, faminta e
seca através de belas cenas como a perseguição de um drone pela
família-protagonista, por outro lado é extremamente expositivo ao tratar de
questões científicas complexas, o que acaba tornando esta parte do filme um
pouco maçante. Mas já neste ato é possível ver os traços de dois dos pontos
mais fortes do filme: trilha sonora e fotografia. Hans Zimmer entrega uma
trilha sonora lindíssima, pesada, inquietante e quase monotônica. Outro ponto
que já começa a se destacar nesta parte da película é a atuação de Matthew
McConaughey, onde suas capacidades dramáticas são mostradas nas dúvidas e
conflitos de seu Cooper, entre abandonar seus filhos em um mundo insalubre e
fazer o que nasceu para fazer, explorar o espaço. Aqui surge outra cena marcante
e bela em que Cooper, ao tomar a decisão de ir atrás de um mundo melhor para
seus filhos, afasta-se da casa entre lágrimas.
O segundo ato, se fosse por si só um filme isolado já
garantiria um lugar entre os clássicos de ficção cientifica. Neste ponto do
filme, o telespectador é jogado em um espaço silencioso e misterioso,
compartilhando com os exploradores espaciais a angústia de não saber os espera
logo à frente. Jorrando referencias ao clássico supremo da ficção científica 2001: Uma Odisseia no Espaço, Nolan
conduz seu projeto de forma primorosa através do misterioso. E é neste ponto em
que o filme explora seu melhor recurso narrativo e dramático, o tempo.
Utilizando a tão famosa e tão pouco compreendida Teoria da Relatividade, de
Einstein, Nolan entrega as melhores sequências do filme, entre elas a melhor do
filme, em que Cooper percebendo (e se arrependendo) do tempo que perdeu com
seus filhos assiste uma série de mensagens onde acompanha o crescimento dos
mesmos. Mas é justamente no segundo ato que os problemas, que viriam a compor o
problemático terceiro ato, começam a ganhar força. Tentando introduzir questões
emocionais como amor em um ambiente extremamente racional acaba criando alguns
diálogos que beiram a vergonha alheia.
Enfim chegando ao terceiro ato, Nolan abandona praticamente
toda a linha lógica e racional que povoou o filme e se entrega às emoções. E
infelizmente é piegas. Ainda que uma ou outra cena mostre força, principalmente
o reencontro entre Cooper e sua filha (90% da força desta cena deve-se a Hans
Zimmer), o desfecho do filme é corrido e artificial, apostando em solução
confusas e ao melhor estilo Deus Ex
Machina.
Bem como havia dito no começo do texto, escrever sobre Interestelar não foi fácil. Ainda que
seus pontos fortes sejam extremamente fortes, seus pontos fracos possuem força
suficiente para não deixar o filme em paz. De qualquer forma, Interestelar consiste uma experiência
obrigatória para os fãs de Christopher Nolan e aos amantes de ficção
científica. E se tratando de um filme tão relativo, fica difícil classificar o
filme com algo tão absoluto quanto uma nota. E desta forma, para ser justo, só
colocarei os devidos pingos nos is quando tiver a oportunidade de rever a obra,
me reservando o direito de “virar a casaca”. Mas acima de tudo, “in Nolan we
trust”.



