segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Crítica: Interestelar


Interestelar (Interstellar) – 2014

Nota: 4/5


Antes mesmo de escrever sobre Interestelar já prevejo que será uma tarefa bem difícil. De um lado temos a maldição moderna do cinema, a famigerada expectativa. E se uma publicidade bem feita (algo que não falta em Hollywood) já é o suficiente para inquietar até os mais céticos, quando o longa vem assinado por Christopher Nolan, a chance de se sair incólume da maldita expectativa tende a zero. Do outro lado temos a enxurrada visual e sonora que compõe a maior parte do filme. E como é lindo. Mas a este lado da equação infelizmente soma-se uma narrativa problemática. E assim como eu não sai imune das expectativas, o filme não saiu imune dos problemas.

Para uma melhor análise do filme, vou dividi-lo em três atos (infelizmente não garanto isenção de spoilers). O primeiro ato é irregular. Se por um lado é eficiente em ambientar uma Terra a beira da catástrofe, faminta e seca através de belas cenas como a perseguição de um drone pela família-protagonista, por outro lado é extremamente expositivo ao tratar de questões científicas complexas, o que acaba tornando esta parte do filme um pouco maçante. Mas já neste ato é possível ver os traços de dois dos pontos mais fortes do filme: trilha sonora e fotografia. Hans Zimmer entrega uma trilha sonora lindíssima, pesada, inquietante e quase monotônica. Outro ponto que já começa a se destacar nesta parte da película é a atuação de Matthew McConaughey, onde suas capacidades dramáticas são mostradas nas dúvidas e conflitos de seu Cooper, entre abandonar seus filhos em um mundo insalubre e fazer o que nasceu para fazer, explorar o espaço. Aqui surge outra cena marcante e bela em que Cooper, ao tomar a decisão de ir atrás de um mundo melhor para seus filhos, afasta-se da casa entre lágrimas.

O segundo ato, se fosse por si só um filme isolado já garantiria um lugar entre os clássicos de ficção cientifica. Neste ponto do filme, o telespectador é jogado em um espaço silencioso e misterioso, compartilhando com os exploradores espaciais a angústia de não saber os espera logo à frente. Jorrando referencias ao clássico supremo da ficção científica 2001: Uma Odisseia no Espaço, Nolan conduz seu projeto de forma primorosa através do misterioso. E é neste ponto em que o filme explora seu melhor recurso narrativo e dramático, o tempo. Utilizando a tão famosa e tão pouco compreendida Teoria da Relatividade, de Einstein, Nolan entrega as melhores sequências do filme, entre elas a melhor do filme, em que Cooper percebendo (e se arrependendo) do tempo que perdeu com seus filhos assiste uma série de mensagens onde acompanha o crescimento dos mesmos. Mas é justamente no segundo ato que os problemas, que viriam a compor o problemático terceiro ato, começam a ganhar força. Tentando introduzir questões emocionais como amor em um ambiente extremamente racional acaba criando alguns diálogos que beiram a vergonha alheia.

Enfim chegando ao terceiro ato, Nolan abandona praticamente toda a linha lógica e racional que povoou o filme e se entrega às emoções. E infelizmente é piegas. Ainda que uma ou outra cena mostre força, principalmente o reencontro entre Cooper e sua filha (90% da força desta cena deve-se a Hans Zimmer), o desfecho do filme é corrido e artificial, apostando em solução confusas e ao melhor estilo Deus Ex Machina.


Bem como havia dito no começo do texto, escrever sobre Interestelar não foi fácil. Ainda que seus pontos fortes sejam extremamente fortes, seus pontos fracos possuem força suficiente para não deixar o filme em paz. De qualquer forma, Interestelar consiste uma experiência obrigatória para os fãs de Christopher Nolan e aos amantes de ficção científica. E se tratando de um filme tão relativo, fica difícil classificar o filme com algo tão absoluto quanto uma nota. E desta forma, para ser justo, só colocarei os devidos pingos nos is quando tiver a oportunidade de rever a obra, me reservando o direito de “virar a casaca”. Mas acima de tudo, “in Nolan we trust”.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Crítica: Fruitvale Station


Fruitvale Station (Fruitvale Station) – 2013

Nota: 4/5


É impossível, ao assistir os minutos iniciais de Fruitvale Station onde são mostradas filmagens reais feitas por um celular do assassinato de um jovem negro nos Estados Unidos, não lembrar um caso recente brasileiro onde um jovem toma um tiro no meio da rua, também capturado pelas lentes de um celular. Ambas as ações policiais. Ainda que guardadas as devidas diferenças, os dois casos são semelhantes em duas coisas: despreparo da polícia e a discriminação racial. Outro fato curioso é as duas situações ocorreram nos estados mais ricos de seus respectivos países, mostrando que a discriminação racial ainda é forte em todos os lugares. Enfim, não quero muito me aprofundar muito em questões sociais, pois isso é pisar em casca de ovo.

O filme mostra as últimas 24 horas de vida de Oscar Grant, interpretado de forma poderosa por Michael B. Jordan. Adotando uma abordagem quase documental, abusando de uma câmera nervosa, afobada e com quadros fechados, o filme é eficiente em criar o clima de tragédia anunciada. Aqui, porém reside uma ambiguidade narrativa, pois se de um lado gera um clima de tensão constante no filme, mesmo em cenas alegres, por outro lado acaba por criar uma áurea de mártir envolta de Oscar. Felizmente o roteiro compensa este problema mostrando a rotina de um homem falho, um jovem sem grandes perspectivas e a margem da sociedade (realmente se trata de um filme onde é impossível não esbarrar em questões sociais).

A maior força de Fruitvale Station está em seu elenco. Desde o já supracitado Michael B. Jordan, Melonie Diaz que interpreta a namorada e mãe da filha de Oscar, Octavia Spencer e até mesmo os personagens “menos importantes”. O diretor ainda emprega um elemento narrativo interessante ao colocar em cena as telas do celular de Oscar, aparelho que no fim seria o responsável pelo registro da barbárie que se tornaria o ato final do filme.

Por fim, durante o ato final, a truculência policial só não choca mais por que o desfecho já era conhecido desde o inicio da projeção. E os gritos de desespero de Oscar dizendo aos policiais “eu tenho uma filha” ao perceber que o pior havia ocorrido constituem uma imagem emocionante, forte e emblemática. Um filme que infelizmente deve permanecer atual por muito tempo.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Crítica: Boyhood


Boyhood (Boyhood) – 2014

Nota: 5/5

 

O novo filme do diretor Richard Linkater, ou melhor, a nova obra-prima do diretor é um evento cinematográfico raro. Podemos dizer que o filme utiliza do conceito de que “simple is beautiful”, contando a história de crescimento de um garoto comum no estado americano do Texas. Mas se a premissa é simples, a sua execução não é.


Filmado ao longo de 12 anos com os mesmos atores, o filme acompanha a vida de Mason (Ellar Coltrane) dos 5 anos de idade até os 18, quando ingressa na faculdade. A infância e adolescência de Mason, ainda que atravesse algumas dificuldades envolvendo escolhas erradas na vida amorosa de sua mãe, não é nada traumatizante. Filho de pais separados, possuí uma boa relação com ambos, não tem problemas com as garotas, atravessa as jornadas de auto-conhecimento envolvendo bebidas, drogas e sexo de maneira completamente natural. E como uma história completamente banal como esta pode se transformar em uma obra-prima cinematográfica? A resposta está nos parágrafos abaixo.


O primeiro a ser elogiado será o diretor Richard Linkater, que já havia demonstrado a impressionante capacidade de humanizar seus personagens, conflitos e medos na incrível trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia Noite. Já em Boyhood o diretor eleva todas as suas qualidades a um nível superior. É incrível o planejamento do diretor para rodar um filme em 12 anos e manter sua fluidez. E podemos dizer que em momento algum o filme perde esta dita fluidez, já que acompanhar o crescimento de Mason nas telas acontece de maneira completamente natural, seja por imagens, ações e acontecimentos do cotidiano do personagem principal e dos que estão ao seu redor.


O núcleo central de atores que conta com Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquete e a filha do diretor Lorelei Linkater, também merece só elogios. Além do impressionante comprometimento com um projeto por mais de uma década, é incrível o desenvolvimento das relações e da química entre os personagens. É incrível ver o pai interpretado por Ethan Hawke, que não passava de um moleque que se viu em meio a uma paternidade não planejada, amadurecer diante das telas, seja através do peso das responsabilidades que a vida cobra, do aparecimento das rugas e do enfraquecimento do vigor da juventude. Não menos fascinante é acompanhar o desenvolvimento da mãe interpretada por Patricia Arquete, que se vê desde muito jovem com duas crianças sob seus cuidados, que tem que batalhar para sustentar a família, que vive em constante decepção amorosa, e que assim como Hawke, envelhece diante das telas. E para Ellar Coltrane, que literalmente atravessa a infância e adolescência diante das câmeras, também só sobram elogios.


Ambientado em um EUA paranoico pós 11 de setembro, o filme ainda mostra como o ambiente e a influência dos pais é essencial no desenvolvimento da cabeça das pessoas. E o filme flerta de uma maneira natural com alguns temas como política, guerra, religião, crescimento do conservadorismo, conflito de gerações, entre outros. No aspecto técnico a projeção é impecável. Os conhecidos longos planos de diálogos de Linkater estão presentes. O roteiro é muito bem amarrado. A montagem torna as transições temporais extremamente naturais. A trilha sonora é sensacional.



Acho difícil que algum filme consiga tirar de Boyhood o título de melhor filme de 2014. Após quase 3 horas de projeção, é impossível não se identificar minimamente com a simples, bela e cotidiana história contada. E se a trilogia já citada anteriormente tratava do nascimento e amadurecimento de um relacionamento, Boyhood trata de forma extremamente sensível do nascimento e do amadurecimento de algo muito mais essencial, o ser humano.

Pequenas Notas (3)



Festa no Céu (The Book of Life) - 2014

Nota: 3/5

Festa no Céu é visualmente impressionante e impecável, algo que infelizmente o roteiro não é. Apresentando uma temática interessante e pouco usual, o dia dos mortos, o filme perde força em seu roteiro “preguiçoso” e clichê. Mas contando com toques de seu produtor Guillermo Del Toro, o design de produção nos apresenta cenas com vivacidade de cores e texturas poucas vezes vistas no cinema, como o incrível e “vivo” mundo dos mortos. Em um momento de hiato de grandes animações (Frozen não me convenceu), principalmente por parte da Pixar, Festa no Céu convence.




Trash: A Esperança Vem do Lixo (Trash) - 2014

Nota: 1/5

Stephen Daldry seleciona com um elenco sensacional (Wagner Moura, Selton Mello, José Dumont, André Ramiro, Martin Sheen, Rooney Mara) e literalmente os joga no lixo. Trash tenta juntar Quem Quer Ser um Milionário com Cidade de Deus em uma fábula sobre as mazelas do Brasil e não faz jus nem aos filmes, nem aos problemas, nem ao país. A única coisa boa do filme é o carismático trio de jovens atores. E se filmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens são exemplares de obras que fazem uma dissecação de toda a sociedade brasileira através da pobreza, Trash não chega nem perto de entender a sociedade brasileira, muito menos estuda-la.




Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola 

(A Million Ways to Die in the West) - 2014

Nota: 3/5

Dirigindo seu segundo longa-metragem Seth MacFarlane, agora também atuando, entrega uma comédia “non-sense” e de humor negro ambientada no perigoso Velho-Oeste americano. Mesmo sem contar com grandes atuações, ou grandes momentos, o filme é eficiente em manter um ritmo suficiente para não perder o telespectador. A presença de Neil Patrick Harris, que diverte principalmente os fãs do seriado How I Met Your Mother, mostra que o ator terá dificuldade em se desvencilhar de seu antigo personagem Barney. Ainda que inferior ao Ted, o primeiro longa do diretor, e ainda contando com um horroroso título nacional, o filme merece ser conferido por quem gosta do humor escrachado de Seth MacFarlane.






Homem de Ferro 3 (Iron Man 3) – 2013

Nota: 2/5


Depois das empolgantes divulgações do trailer de Os Vingadores: A Era de Ultron e do teaser da Guerra Infinita, era difícil conter a euforia e não assistir um filme de super-herói da Marvel. Três opções me surgiram na cabeça: Capitão América – O Soldado Invernal, Thor: O Mundo Sombrio e Homem de Ferro 3, todos filmes pertencentes a segunda fase do universo expandido da Marvel. E resolvi escolher justamente Homem de Ferro 3 por ter sido o que menos gostei na primeira vez em que assisti. E se a esperança de que assistindo pela segunda vez conseguiria encontrar qualidade que antes passaram em branco se foram nos primeiros minutos do filme. Uma palavra poderia resumir o filme: pastelão. Ainda que Downey Jr continue eficiente em sua atuação como Tony Stark, todo o resto cai aos pedaços. O roteiro é uma catástrofe, os vilões são risíveis, as reviravoltas previsíveis e sem graça, e as soluções desastrosas. E se os filmes anteriores eram beneficiados pelo humor e pela ação, este terceiro capítulo erra até neste ponto. Mais um filme que promete, vende bem o seu peixe (os trailers eram incríveis) e falha em sua execução. Por sorte este filme foi o primeiro e único tropeço da Marvel na Fase 2, já que depois Capitão América e Thor acertaram a mão.