terça-feira, 4 de novembro de 2014

Crítica: Boyhood


Boyhood (Boyhood) – 2014

Nota: 5/5

 

O novo filme do diretor Richard Linkater, ou melhor, a nova obra-prima do diretor é um evento cinematográfico raro. Podemos dizer que o filme utiliza do conceito de que “simple is beautiful”, contando a história de crescimento de um garoto comum no estado americano do Texas. Mas se a premissa é simples, a sua execução não é.


Filmado ao longo de 12 anos com os mesmos atores, o filme acompanha a vida de Mason (Ellar Coltrane) dos 5 anos de idade até os 18, quando ingressa na faculdade. A infância e adolescência de Mason, ainda que atravesse algumas dificuldades envolvendo escolhas erradas na vida amorosa de sua mãe, não é nada traumatizante. Filho de pais separados, possuí uma boa relação com ambos, não tem problemas com as garotas, atravessa as jornadas de auto-conhecimento envolvendo bebidas, drogas e sexo de maneira completamente natural. E como uma história completamente banal como esta pode se transformar em uma obra-prima cinematográfica? A resposta está nos parágrafos abaixo.


O primeiro a ser elogiado será o diretor Richard Linkater, que já havia demonstrado a impressionante capacidade de humanizar seus personagens, conflitos e medos na incrível trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia Noite. Já em Boyhood o diretor eleva todas as suas qualidades a um nível superior. É incrível o planejamento do diretor para rodar um filme em 12 anos e manter sua fluidez. E podemos dizer que em momento algum o filme perde esta dita fluidez, já que acompanhar o crescimento de Mason nas telas acontece de maneira completamente natural, seja por imagens, ações e acontecimentos do cotidiano do personagem principal e dos que estão ao seu redor.


O núcleo central de atores que conta com Ellar Coltrane, Ethan Hawke, Patricia Arquete e a filha do diretor Lorelei Linkater, também merece só elogios. Além do impressionante comprometimento com um projeto por mais de uma década, é incrível o desenvolvimento das relações e da química entre os personagens. É incrível ver o pai interpretado por Ethan Hawke, que não passava de um moleque que se viu em meio a uma paternidade não planejada, amadurecer diante das telas, seja através do peso das responsabilidades que a vida cobra, do aparecimento das rugas e do enfraquecimento do vigor da juventude. Não menos fascinante é acompanhar o desenvolvimento da mãe interpretada por Patricia Arquete, que se vê desde muito jovem com duas crianças sob seus cuidados, que tem que batalhar para sustentar a família, que vive em constante decepção amorosa, e que assim como Hawke, envelhece diante das telas. E para Ellar Coltrane, que literalmente atravessa a infância e adolescência diante das câmeras, também só sobram elogios.


Ambientado em um EUA paranoico pós 11 de setembro, o filme ainda mostra como o ambiente e a influência dos pais é essencial no desenvolvimento da cabeça das pessoas. E o filme flerta de uma maneira natural com alguns temas como política, guerra, religião, crescimento do conservadorismo, conflito de gerações, entre outros. No aspecto técnico a projeção é impecável. Os conhecidos longos planos de diálogos de Linkater estão presentes. O roteiro é muito bem amarrado. A montagem torna as transições temporais extremamente naturais. A trilha sonora é sensacional.



Acho difícil que algum filme consiga tirar de Boyhood o título de melhor filme de 2014. Após quase 3 horas de projeção, é impossível não se identificar minimamente com a simples, bela e cotidiana história contada. E se a trilogia já citada anteriormente tratava do nascimento e amadurecimento de um relacionamento, Boyhood trata de forma extremamente sensível do nascimento e do amadurecimento de algo muito mais essencial, o ser humano.

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