sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Steve Jobs (2015)



Um sociopata, dois filmes e a diferença que um ator, um diretor e um roteiro podem fazer.

     Steve Jobs era um babaca. E pra piorar, um babaca bilionário. Mas Steve Jobs é a figura perfeita para representar sua geração e o tal Vale do Silício, que de fato mudou o mundo. Junte a isso uma morte precoce causada por uma doença ingrata e temos a mistura perfeita para não uma, mas duas cinebiografias separadas por um curto período de dois anos. Mas ao contrário da diferença temporal, o abismo entre os dois filmes é gigantesco.

     Em 2013 estreava Jobs e tinha seu personagem-título representado por Ashton Kutcher, que convenhamos é um ator limitadíssimo. E para piorar é impossível desvencilhar imagem de que Michael Kelso está interpretando uma pessoa brilhante. E por mais que em alguns momentos Kutcher chegue a lembrar vagamente Jobs, sua atuação se limita a pegar certos trejeitos e copiá-los de maneira extremamente artificial. Pronto, começamos com uma péssima escolha de ator. Então coloquemos Joshua Michael Stern no volante e vamos ver no que dá. Típico diretor reserva de estúdio, sem qualquer personalidade e, que constrói em seu filme momentos que beiram o ridículo como a cena em que Jobs em um “momento de epifania” corre para o meio de um gramado vislumbrando seu futuro genial. E pra finalizar temos o roteiro de Matt Whiteley.  Preguiçoso e covarde, nunca toma um lado e se reserva a amenizar a barra de Jobs cada vez que o mesmo comete um dos seus atos de babaquice. Além disso, o filme foge completamente da polêmica relação de Jobs com sua filha e chega a ser patético o momento de “pai do ano” na cena em que Jobs acorda sua filha no sofá de sua mansão.

     Então em 2015 chegaram Danny Boyle e Michael Fassbender. Confesso que fui ao cinema com grande receio, já que como notado Steve Jobs não é uma figura que me cativa. Mas como dito no título desse texto, é aí que entra em ação um bom diretor e um excelente ator e mudam tudo. O filme nem se preocupa em tentar fazer Fassbender se parecer com Jobs, já que a semelhança entre eles é nula, mas no momento que começa a falar, a andar, a atuar, conseguimos acreditar naquele Steve Jobs. Fassbendar fascina na tela. O roteiro assinado por Aaron Sorkin, que havia escrito A Rede Social de David Fincher, é muito mais corajoso e que não teme em mostrar a pior faceta de Steve Jobs, ainda que tenha uma pequena recaída em seu final em um momento de “redenção” de Jobs com sua filha totalmente dispensável. E Boyle aqui destila toda sua personalidade e estilo frenético em um filme de embates e conflitos que é extremamente hábil em prender a atenção do expectador durante toda a projeção do longa.

     O filme se passa em três momentos, começando em 1984 na sessão de apresentação do Macintosh, continua em 1988 durante a apresentação do computador da Next, empresa que Jobs fundou depois de ter sido demitido da Apple, e finaliza em 1998 na apresentação do iMac. Em encontros que se repetem com o passar dos anos, vemos a relação conturbada de Jobs com a filha e a mãe de sua filha, observamos a destruição de sua amizade com Steve Wozniak (aqui interpretado com competência por Seth Rogen) e a relação perturbada com John Sculley (Jeff Daniels). Outro ponto positivo do filme é a trilha sonora, extremamente efetiva em auxiliar o ritmo do filme e que culmina naquela que considero a melhor cena do filme em que Steve Jobs se compara a um regente de orquestra.


     Portanto, Steve Jobs de Danny Boyle é um excelente estudo de personagem que acerta em praticamente todos os pontos que o antecessor havia errado, e ainda por cima é extremamente relevante ao representar seu momento histórico. Jobs queria que todas as pessoas do planeta tivessem acesso a um computador e isso ajudaria o mundo a se tornar um lugar melhor. Estamos quase lá, mas o mundo não se transformou em um lugar melhor, vivemos uma onda de ódio e irracionalismo generalizado que preocupa e é extremamente oposta a visão de futuro de Jobs. Mas afinal, toda obra reflete a alma de seu criador e como uma máquina criada por Steve Jobs poderia ajudar a construir um mundo melhor se ele próprio não conseguia ser uma pessoa melhor. Muito me preocupa um mundo que coloca Jobs com exemplo de pessoa, pois se idolatramos uma pessoa sem escrúpulos, que passou por cima de simplesmente toda pessoa que o ajudou a ser quem ele era significa que algo está muito errado conosco.