Quinta-feira, dia 31
de março de 2016. Eram cerca de duas horas da manhã, fechei o livro que estava
lendo, fui escovar os dentes, lavar meus óculos para deixa-los pronto para
minhas aulas de amanhã e me deitei. Como de costume, o maldito vício das redes sociais
me fez abrir o Facebook para aqueles tradicionais últimos 15 minutos de
internet antes de finalmente adormecer. O que eu não esperava era ver uma
notícia que me fez perder o sono, muito menos pelo conteúdo da mesma (que não
deixa de enojar) e muito mais pelas questões que uma simples (e mal escrita) notícia
me trouxeram.
Bom, antes de entrar
no mérito dessa tal notícia gostaria de abrir um parêntese. Ainda essa semana, em
viés dos atentados terroristas acontecidos em Bruxelas, eu comentei com minha
namorada o fato de estar aliviado de ter escolhido os Estados Unidos como local
de meu intercâmbio, já que em minha vontade de conhecer outras culturas e novas
pessoas quase fui parar justamente na Bélgica. E então uma aterradora coluna
escrita por John Carlin para o El País acabou de vez com os meus ânimos. A
coluna intitulada de “A nova normalidade” discursava sobre como o terror e a
intolerância começava a ser a nova normalidade na vida de muitas pessoas. E o
pior, ninguém sabe direito a causa. E claro que as notícias não param por aí: 72
pessoas mortas em explosões no Paquistão, 29 pessoas mortas na saída de um jogo
de futebol no Iraque, genocídio na Nigéria. Mas o que realmente matou essas
pessoas não foi a combustão explosiva de um dispositivo amarrado na cintura de um
suicida, e sim algo muito mais inflamável: a intolerância.
Então voltamos a tal
notícia que me motivou sair de debaixo das cobertas, ligar meu computar e
digitar este pequeno texto. A manchete trazia os seguintes dizeres: “Pediatra
se recusa a atender bebê porque a mãe da criança é petista”. E antes mesmo que
joguem as pedras já vou logo dizer, somente pela manchete poderíamos chegar à
conclusão de que a médica deixou a criança em apuros. Não, a médica
simplesmente descontinuou o acompanhamento da criança de um ano que acompanhava
desde o primeiro mês de vida, recomendando a mãe da criança a procurar outro
médico. Direito da médica, decepção com o ser humano por trás do jaleco.
Não contente, ainda
fui mais para o fundo do poço e abri a sessão de comentários. Alguns comparavam
a mãe petista a um “estuprador contumaz” e e a um “nazista convicto”. Outros diziam
para a criança comer mortadela e mandar a conta para o PT. Tinha até gente
dizendo que se dependesse de médico cubano a criança já estaria morta. E foi aí
que bateu um aperto no peito, ao constatar que o que separa isso do que ocorre
na Europa, na Ásia e na África é muito mais tênue do que se imagina. É a beira
do precipício. Essa é a “nova normalidade” do Brasil? Se você acha que o PT, o
Lula ou a Dilma vão destruir o país, espera para ver até onde a intolerância
vai nos levar.
Alguns pequenos
adendos:
- Rodrigo Constatino
escreveu na latrina que ele por algum motivo desconhecido chama de blog as seguintes
palavras: “Vocês acham que uma médica judia deveria atender um paciente nazista
com uma suástica tatuada na mão? Então! Um médico não deve ser obrigado a
atender petralhas, os mesmos que querem lhe destruir”. Não quero parecer
redundante, mas só lembrando que o tal paciente em questão é uma pessoa de 12
MESES de vida.
- A todos aqueles que
esbravejaram contra os médicos cubanos e que os mesmos roubam trabalho dos
médicos brasileiros nos comentários, gostaria de lembra-los que algumas regiões
do Brasil como o sertão nordestino ou o interior dos Amazonas ofertam salários
de mais de 10 mil reais para médicos que desejarem trabalhar nestes locais. E
não é que faltem médicos no Brasil, é que ninguém QUER. Existem crianças de
mais de dez anos de idade realizando as primeiras consultas médicas de suas
vidas graças aos famigerados médicos cubanos em comunidades ribeirinhas do
Amazonas. Às vezes é difícil imaginar que o Brasil é maior que nosso umbigo né?
- Segue o link da
coluna “A nova normalidade” que citei em meu texto para aqueles que se
interessarem. http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/27/internacional/1459109847_727762.html
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